As tecnologias têm contribuído para distanciar as crianças dos livros, é o que indica a última pesquisa do Instituto Pró-Livro, lançada no final de 2024. Na era digital, bebês já nascem em meio a telas e estímulos visuais, sonoros, dimensionais e acabam tendo pouco contato com a leitura.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, aponta que apenas 7,7% de crianças entre cinco e 10 anos são leitoras. Esse número representa uma queda de 4% em relação a 2019, quando o percentual era de 11,7%.
Os dados da pesquisa indicam que 68% das crianças usam a internet no tempo livre, 43% jogam vídeo-games e 36% usam WhatsApp, Telegram, Facebook e outras redes sociais. Em contrapartida, apenas 32% leem livros, jornais ou revistas em momentos de lazer.
A Doutora em Educação e pesquisadora em literatura infantil e formação do leitor na cultura digital, Giselly Moraes, em entrevista ao PS Notícias, afirma que as crianças hoje têm acesso a uma forma de interação com o mundo a partir das telas e que isso gera impactos na cognição, na socialização e na gestão do próprio tempo do infante.
Para além dos impactos cognitivos, os conteúdos consumidos por crianças em redes sociais como Tik Tok e Instagram, não contribuem para o desenvolvimento educativo das crianças.
“O problema é que a maioria desses conteúdos são de baixa qualidade, são viciantes porque são conteúdos apresentados em looping e além de superficiais, às vezes não tem uma narrativa. Não tem um fio narrativo, não tem nada que elas possam desenvolver uma competência narrativa, uma concentração, habilidades cognitivas de leitura”, explica Giselly Moraes.
Além dos estímulos repetitivos e viciantes promovidos pelas redes sociais, outro aspecto apontado pela especialista é a falta de tolerância para atividades que requerem maior dedicação das crianças, já que por conta do consumo de conteúdos curtos os infantes não conseguem se concentrar.
“As crianças que têm acesso a esse tipo de conteúdo desenvolvem um tempo de concentração cada vez mais curto, já que esses vídeos têm 15 segundos. As crianças não suportam [outros tipos de conteúdos], têm dificuldade de se concentrar em atividades menos dinâmicas, que requer mais tempo, lentidão, silêncio, esforço, porque a leitura requer esforço, então claro que isso tem um impacto na capacidade cognitiva e no tempo de concentração”, elucida Moraes.
Despertar novos leitores
Segundo o Instituto Pró-Livro, 85% das pessoas costumam ler em casa, além disso, 34% foram influenciados por alguém para começar a ler. Esse dado aponta a importância da atuação da família no desenvolvimento do hábito, principalmente entre crianças.
“Incluir o livro nas relações familiares, como uma atividade de interação entre o adulto e a criança, que é carregada de afeto, de troca, de descoberta do mundo, mostrar curiosidade pelos livros, entrar no mundo dos livros ou no mundo da leitura, mesmo no meio digital, junto com as crianças. Não delegar elas sozinhas, esse percurso, essa caminhada, é preciso ir junto com elas, levá-las pela mão”, destaca Moraes.
Nesse sentido, a especialista afirma que para o desenvolvimento de novos leitores, é preciso um movimento de formação tanto de professores capacitados para lecionar e instigar os alunos, quanto de formação dos próprios leitores a partir da oferta de livros, políticas de incentivo e do aumento de bibliotecas.
“Essa leitura da literatura, ela precisa ser promovida, não só incentivada, mas promovida em diversos espaços sociais. A gente vê que o Brasil ainda é muito tímido nessas políticas. Da leitura e do livro. Estamos aguardando que, agora que voltamos a ter uma secretaria de política da leitura e da escrita, queremos uma política contundente nesse sentido, porque está fazendo falta. Acho que em outros âmbitos ainda precisamos investir em bibliotecas, as bibliotecas infantis, atrair os pais para esses espaços, que devem ser espaços culturais, mas isso a gente vê de forma ainda muito… muito incipiente, muito iniciante, muito inicial ainda”, conta.
Regulação
Em 2024, os indicadores do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), mostraram que 5% das crianças de 0 a 2 anos, 20% das de 3 a 5 anos e 36% das de 6 a 8 anos possuem telefone celular próprio.
Esse fenômeno é registrado mesmo com a determinação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Unesco acerca do tema. Para as duas instituições, crianças menores de 1 ano não devem ter acesso a telas, crianças de 1 a 2 anos não devem usar aparelhos eletrônicos e crianças de 2 a 4 anos não devem passar mais de 1 hora por dia diante das telas.
Nesse sentido, a especialista Giselly Moraes diz que a questão do uso do celular não impacta apenas a leitura infantil, mas também outros aspectos da vida infantil como a socialização e brincadeiras.
“O que a gente percebe é a falta de regulação nesse sentido. A gente tem visto algumas tentativas legais, mas ainda falta uma consciência nessa regulação, para que a sociedade atue junto para tentar expor esse problema grave para as infâncias e para o desenvolvimento dos jovens”, elucida Moraes.
Para além da legislação, outro aspecto apontado pela Doutora em Educação é a necessidade de capacitação dos profissionais da área para lidar com os impactos tecnológicos na leitura e, também, para o desenvolvimento de habilidades com essas novas ferramentas.
“Tem algumas iniciativas, tem avanços, mas ainda precisamos investir muito, muito, muito mais. Eu acho que esse é um problema que o Brasil ainda não abraçou como prioridade e isso é entender que, assim, acho que do jeito que a coisa está sendo feita, ainda se pensa que a leitura é uma questão secundária. E eu entendo que ela não é. A leitura da literatura, sobretudo, ela organiza a experiência, ela contribui para uma psique saudável, ela contribui para as relações sociais saudáveis, para a empatia, para a solidariedade, para a descoberta do mundo, para a curiosidade científica, para a curiosidade intelectual em todos os níveis. Então, eu acho que é preciso abraçar isso com mais prioridade”, afirma Moraes.
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